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A água e o Cerrado

O Cerrado apresenta uma rede hidrográfica de destaque em relação aos demais Domínios Fitogeográficos brasileiros, pois dele partem três das maiores bacias da América do Sul: as bacias do São Francisco, do Tocantins-Araguaia e do Paraná. Não por acaso o Cerrado por vezes é referido como “Berço das Águas”, ou “Caixa d’Água do Brasil”.

Todos os biomas brasileiros (os Pampas gaúchos, o Pantanal Mato-grossense, a Floresta Amazônica, a Caatinga e a Mata Atlântica) recebem alguma fração de água originária de nascentes localizadas na região do Cerrado. A existência desses cursos d’água pode ter contribuído para a grande riqueza e endemismo observados no Cerrado. Através dos rios, vários organismos dos mais variados biomas podem ter encontrado caminho para migrar e colorizar as regiões mais centrais do nosso território.

O fato de ser uma região divisora de bacias, porém, traz como desvantagem a escassez de rios de grande porte. O Planalto Central brasileiro, por se tratar de uma região de altitude elevada quando comparado com o restante do país, apresenta grande quantidade de nascentes e corpos hídricos de tamanho pequeno e intermediário. Devido às características de rios de planalto, é típica a ocorrência de perfis escalonados por zonas de rápidas corredeiras, ou mesmo grandes quedas, formando as belíssimas cachoeiras que despontam no Cerrado. Dadas as condições favoráveis dos solos, da topografia e do clima, a grande maioria dos cursos da rede de drenagem local conta com regime perene.

A aparente fartura de água no Cerrado, por sua vez, vem sofrendo várias ameaças. Particularmente no caso do Distrito Federal, as águas superficiais, em termos de drenagem, não são abundantes e estão parcialmente comprometidas; em função disso, procura-se água subterrânea para suprir a demanda. Contudo, devido a características hidrogeológicas da região, caracterizada pelo predomínio de rochas metamórficas com fissuras estreitas, o volume de água armazenado é pouco significativo para um aproveitamento sistemático desses aqüíferos.

De uma maneira geral, ocupações irregulares, construção indiscriminada de poços artesianos, avanço de plantações com utilização de fertilizantes e agrotóxicos e ausência de tratamento de esgoto já começam a comprometer a qualidade da água em várias regiões do Cerrado. Além disso, a demanda por areia lavada em atividades de mineração vem provocando alterações no leito de rios em função da retirada do sedimento, modificando o regime hidrológico desses ambientes. Da mesma forma, o aumento da construção de usinas hidrelétricas nos últimos anos também vem alterando drasticamente ambientes aquáticos e terrestres do Domínio em questão.

Segundo os resultados do workshop “Ações Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade do Cerrado e Pantanal”, promovido pelo MMA, Conservation International e outras instituições, (Brasília, 1999) os sistemas mais ameaçados na região e que devem ter prioridade compreendem as cabeceiras das bacias de drenagem e as planícies de inundação dos grandes rios. As veredas e os brejos de altitude também são incluídos nessa avaliação, pois são habitados por várias espécies anuais de distribuição muito restrita. Recomenda-se, ainda, proteger efetivamente todas as áreas com conexões entre bacias. A “Caixa d’Água do Brasil” agradece.


Fontes:

Rocha, A.J.A. 1990. Caracterização limnológica do Distrito Federal. In: Pinto, M.N. (org.). Cerrado: caracterização, ocupação e perspectives. Brasília: Editora da UnB. 449-470.

Sousa, M.A.A. 1990. Relação entre as atividades ocupacionais e a qualidade da água no Cerrado. In: Pinto, M.N. (org.). Cerrado: caracterização, ocupação e perspectives. Brasília: Editora da UnB. 181-204.

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