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Conservação e Manejo de Capim Dourado no Jalapão

A Região do Jalapão

Na região do Jalapão, a PEQUI realizou diversos levantamentos biológicos e, vem trabalhando para o desenvolvimento de técnicas para a conservação e o manejo de capim dourado. Em maio de 2001, a PEQUI participou da Expedição Científico-Conservacionista Gilvandro Simas Pereira, organizada pelo Ibama, com colaborações da Universidade de Brasília, Conservação Internacional, Naturantins, entre outras instituições. Os estudo realizados nesta expedição justificaram a criação da Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, com 716.000 hectares, uma das maiores Unidades de Conservação do Cerrado.

Em meados de 2002, a PEQUI participou dos levantamentos biológicos para a elaboração do Plano de Manejo do Parque Estadual do Jalapão (Unidade de Conservação com 158.000 hectares ). A PEQUI foi responsável pela amostragem e caracterização da vegetação, além de diversos grupos da fauna terrestre: mamíferos, aves, répteis, anfíbios e formigas.

A região do Jalapão abriga provavelmente a maior área contínua de Cerrado conservado, há na região extensas áreas de veredas, fisionomia caracterizada pela monodominância de buritis ( Mauritia flexuosa) e que indica a presença de pequenos mananciais e cursos d'água. Outra fisionomia marcante do Jalapão são as áreas de campos, há os campos sujos, em terrenos secos e os campos úmidos, adjacentes às veredas. Além de formações campestres, ocorrem na região extensas áreas de cerrado sentido restrito, além de áreas de cerradão, caracterizadas pela ocorrência de ipês (Tabebuia spp.), copaíba (Copaifera languisdorffii) e jatobás (Hymenaea spp), além de matas de galeria, ao longo dos rios.

Graças à vasta extensão de áreas naturais, o Jalapão é refúgio para diversas espécies de animais de grande e médio porte, muitos ameaçados de extinção. Entre os mamíferos pode-se citar a ocorrência de lobo guará (Chrysocyon brachyurus), a onça pintada (Panthera onca), o cachorro vinagre (Speothus venaticus) e a jaguatirica (Leopardus pardalis). Até o presente foram registradas mais de 130 espécies de aves na região, destacando-se três tipos de araras, arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), arara-vermelha-grande (Ara chloroptera)e arara-canindé (Ara ararauna), além da ema (Rhea americana) e o gavião do rabo branco (Buteo albicaudatus).

A flora e a fauna do Jalapão são características do Bioma Cerrado, mas há, na região ocorrência de espécies características da Amazônia e da Caatinga. A biodiversidade da região ainda é muito pouco conhecida, uma prova disto é que, desde 2001 foram encontradas na região espécies até então na descritas. Entre estas espécies novas, destacam-se duas espécies de arbustos e uma de lagarto.

Conservação e Manejo de Capim Dourado

O artesanato de capim dourado foi identificado como uma potencialidade econômica da região e é uma atividade extrativista que pode estar associada à conservação do Cerrado no Jalapão. Por isto, em 2002, iniciou-se o Projeto “Conservação e Manejo de capim dourado no Jalapão”, realizado pela PEQUI, em parceria com a Diretoria de Florestas do Ibama e com apoio da Associação Capim dourado do Povoado da Mumbuca, do Parque Estadual do Jalapão e da Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, do Naturatins , do Programa de Pequenos Projetos (PPP-GEF/PNUD/ISPN), da Universidade de Brasília e da Embrapa Cenargen. Este projeto tem por objetivos:

 •  Caracterizar as formas tradicionais de manejo da espécie e dos campos úmidos em que ela ocorre;

•  Testar efeitos da colheita de hastes e do manejo com o fogo sobre o capim dourado e as plantas dos campos úmidos;

•  Verificar efeitos da retirada do “olho” do buriti (de onde é extraída a seda usada para costurar o artesanato de capim dourado) sobre as populações desta palmeira.

O acompanhamento de mais de 2.000 plantas de capim dourado por mais de um ano, sempre contando com a colaboração de moradores do Povoado da Mumbuca, permitiu a descrição do ciclo de vida da planta, inclusive época de floração (produção das hastes usadas no artesanato), crescimento e produção de sementes.

Os resultados experimentais indicam que a colheita de hastes de capim dourado não tem efeitos de curto prazo sobre a espécie. Mas a colheita de hastes antes de sua maturação prejudica as plantas adultas, podendo matá-las por desenraizamento, não permite a produção e dispersão das sementes, o que pode ser extremamente prejudicial à espécie.

Com base nos resultados obtidos, a partir de 2004, o Naturatins – Instituto Natureza do Tocantins elaborou regras para a colheita das hastes de capim dourado utilizadas na confecção artesanal. Estas regras estão na Portaria 092/2005 que determina que:
- as hastes apenas podem ser colhidas após 20 de setembro;
- as flores (capítulos, ou frutos) devem ser cortadas e dispersas no solo logo após a colheita;
- As hastes de capim dourado não podem sair da região in natura, apenas em forma de artesanato.
Estas regras visam garantir a produção de sementes (que ocorre apenas a partir do início de setembro) e sua manutenção nos campos úmidos, para a que as populações de capim dourado possam se manter, naturalmente. Além disto, pretende-se garantir que o capim dourado gere renda para artesãos da região do Jalapão, sendo vendido já como artesanato, com valor agregado.

Assim, vemos que o extrativismo de capim dourado no Jalapão pode ser sustentável e gerar renda para os moradores da região. Para garantir isto, a PEQUI trabalha na região com diversas parcerias e divulga os resultados que encontra. Atualmente, nos dedicamos a estudar os efeitos do fogo, usado no manejo dos campos úmidos, sobre a ecologia do capim dourado e de seu ambiente.

Para saber mais, leia algumas de nossas publicações resultantes deste projeto!

 

Cartilha Capim Dourado e Buriti: Práticas para garantir a sustentabilidade do artesanato.

Extrativismo de capim dourado no Jalapão: potencialidades e perigos (artigo publicado pelo Jornal da Ciência on line – SBPC em abril de 2005)

Capim dourado: Desafios do uso sustentável no entorno do Parque Estadual do Jalapão (Resumo de palestra apresentada na Mesa Redonda: Etnobotânica e Unidades de Conservação – 56º Congresso Nacional de Botânica, Curitiba, Outubro de 2005)

Ethnobotany of Syngonanthus nitens (Eriocaulaceae): a non-timber forest product (NTFP) from the Brazilian Cerrado, at Jalapão region, Tocantins (resumo de trabalho apresentado durante 19th Annual Meeting of the Society for Conservation Biology, Brasília, Julho de 2005)

Effects of escapes harvesting over Syngonanthus nitens (Eriocaulaceae) populations in Jalapão region, Tocantins State, Central Brazil (Resumo de trabalho apresentado no AnnualMeeting of The Association for Tropical Biology Conservation, Uberlândia, Julho de 2005)

Etnobotânica e Ecologia populacional de Syngonanthus nitens: sempre-viva utilizada para artesanato no Jalapão, Tocantins (Dissertação de Mestrado em Ecologia pela Universidade de Brasília)

 

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